Sim, nós podemos ser heróis… ainda que seja apenas por um dia

O heroísmo não é um estado permanente, mas um ato de coragem — que pode ser alcançado por qualquer um de nós, mesmo que por um breve momento.

A minha playlist é bem eclética e extremamente variada. Por vezes, ela transcende meus players e, do nada, músicas tocam em minha cabeça. E foi o que aconteceu ainda pouco. Sem motivo aparente, a música Heroes, de David Bowie, começou a ecoar em minha mente. É curioso como o cérebro faz inúmeras conexões, associações, “cálculos” e te presenteia (ou não) com memórias. Às vezes, essas memórias são boas. Às vezes, não. Dessa vez, a minha memória — já não tão boa — me trouxe reflexões.

A primeira associação que fiz foi com As Vantagens de Ser Invisível, aquele filme que captura tão perfeitamente a fragilidade e a força da juventude. Não à toa, marcou a vida de muitos jovens dos anos 2010. A cena tornou-se icônica; três jovens, passando de carro por um túnel com os primeiros acordes da música preenchendo o veículo. Um dos amigos, a Sam (Emma Watson) sai da cabine do carro, sobe na carroceria e, em um momento de liberdade contagiante e inexplicável, abre os braços e se deixa acariciar pelo vento que lhe envolve o corpo e a alma. A cena parece condensar muito bem a essência da música: ser herói apenas por um momento.

Aproveitei para ver um videoclipe de Heroes no YouTube. É incrível como ela mexe com as pessoas. Basta ir na seção de comentários para ver o quão impactante é o filme e a música. O legal dessas obras (filmes, músicas, romances, etc.) é que elas nos tocam de uma maneira particular e íntima, cada um se lambuza na própria maionese.

© Reprodução/YouTube

Mas a história real por trás de Heroes é ainda mais poderosa do que qualquer representação cinematográfica. Imagine Berlim em 1977, a cidade cortada ao meio por um muro que separava mais do que concreto: separava famílias, amores, sonhos. Foi nesse cenário distorcido pela imbecilidade humana que Bowie compôs seu hino.

People from West Berlin looking behind the Berlin Wall, 1961 — © Council of Europe

A música nasceu de uma história real de amor; um casal dividido literalmente pelo muro, que se encontrava em um ponto onde podiam se ver, mas não se tocar. Um na Alemanha ocidental, o outro na Alemanha oriental. Amantes separados por uma barreira física e política, mas unidos pela intensidade de um sentimento que supera qualquer fronteira.

Em um passado remoto fui músico, então, costumo ouvir música de uma forma diferente. Presto atenção no que cada instrumento faz, como ele contribui para a música, as viradas de baterias, que técnicas usam e por aí vai. Em Heroes, David Bowie parece se esforçar a cada vez que canta o refrão, parece que precisa gritar mais e mais alto. E isso é proposital, pois o produtor queria dar a sensação de perda, da angústia que o casal sentia ao estarem separados pelo muro, cada vez mais longe um do outro, então, precisavam gritar para serem ouvidos. Como estamos falando de 1977, o truque foi que o microfone era afastado de Bowie e ele precisava gritar cada vez mais alto para poder ter o mesmo nível de captação. Genial, não?

Percebi, na verdade, já sabia. Mas, vez por outra, é bom relembrar: “Heróis” não são apenas aqueles dos filmes de ação. São as pessoas que amam, mesmo quando tudo parece impossível. São os que se mantêm de pé quando o mundo conspira para derrubá-los. São aqueles que escolhem o amor em tempos de medo. São os que decidem fazer o que precisa ser feito, mesmo que isso traga consequências indesejáveis.

A última vez que ouvi “Heroes” foi em um documentário sobre o próprio David Bowie. Um artista que sempre foi além, que sempre quebrou fronteiras — sejam elas musicais, de gênero, de pensamento. Ele mesmo era um herói, por mais de um dia.

No momento em que o último acorde se esvaiu, percebi que a música continua atual. Continuamos divididos, continuamos precisando de heróis. Continuamos precisando acreditar que podemos ser extraordinários, ainda que seja apenas por um dia.

Então, me acompanhe: "We can be heroes... just for one day" ⚡🎸
Renato Ipiranga
Engenheiro de Software e pretenso escritor.

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