Bugonia | O evangelho da desinformação

Bugonia transforma o delírio conspiratório em uma tragicomédia inquietante sobre a nossa fuga desesperada da realidade.

Bugonia, de Yorgos Lanthimos, parte do antigo mito da bugonia, a crença de que abelhas nasceriam da carcaça de um boi, para construir uma tragicomédia absurda que soa estranhamente próxima do nosso tempo. A trama acompanha dois homens convencidos de que alienígenas já vivem entre nós e estão conduzindo a humanidade ao colapso. Quando sequestram uma poderosa empresária que acreditam pertencer a essa espécie infiltrada, o filme mergulha numa sucessão de delírios conspiratórios que alternam entre o cômico, o grotesco e o inquietante.

Como em boa parte do cinema de Lanthimos, o absurdo funciona como lente para observar a realidade. O que parece apenas um pastelão de teorias delirantes logo se revela um retrato incômodo de um mundo atravessado por desinformação, paranoia e desconfiança generalizada. Em um cenário no qual a própria ideia de verdade parece cada vez mais frágil, o filme sugere que a busca obsessiva por culpados, sejam alienígenas, corporações ou elites, pode ser apenas uma forma de evitar encarar a responsabilidade humana pelo caos que criamos.

A metáfora da bugonia atravessa todo o filme. Na tradição do mito, da decomposição pode surgir nova vida. Aqui, essa ideia ganha um tom inquietante, como se a própria humanidade estivesse em processo de decomposição moral. Em tempos de radicalização e desinformação, algumas escolhas do filme soam perigosamente ambíguas, ainda que a discussão proposta seja válida. No fim, fica a sensação de que o filme termina sabendo que será divisivo.

Bugonia
18 2025
Comédia, Ficção científica, Thriller

Sinopse

Dois jovens obcecados por teorias da conspiração sequestram a poderosa CEO de uma grande empresa, convencidos de que ela é uma alienígena com a intenção de destruir o planeta Terra.
Diretor: Yorgos Lanthimos
Roteiro: Will Tracy

Elenco principal

Felipe Moura
Jornalista, cinéfilo e pseudo nerd. Entusiasta dos anos 80, apesar de ter nascido nos anos 90. Fã de sagas espaciais, terra média e mundo bruxo. Assiste a todo tipo de filme, com exceção de alguns do gênero terror. Aprecia quase todas as vertentes do rock 'n' roll, músicas alternativas e uma boa MPB. Coleciona livros, HQs e câmeras antigas. Sua paixão é o cinema e não pensaria duas vezes se pudesse viver em um. Nas horas vagas arrisca ser fotógrafo, faz alguns rabiscos e escreve análises.

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