Bugonia, de Yorgos Lanthimos, parte do antigo mito da bugonia, a crença de que abelhas nasceriam da carcaça de um boi, para construir uma tragicomédia absurda que soa estranhamente próxima do nosso tempo. A trama acompanha dois homens convencidos de que alienígenas já vivem entre nós e estão conduzindo a humanidade ao colapso. Quando sequestram uma poderosa empresária que acreditam pertencer a essa espécie infiltrada, o filme mergulha numa sucessão de delírios conspiratórios que alternam entre o cômico, o grotesco e o inquietante.
Como em boa parte do cinema de Lanthimos, o absurdo funciona como lente para observar a realidade. O que parece apenas um pastelão de teorias delirantes logo se revela um retrato incômodo de um mundo atravessado por desinformação, paranoia e desconfiança generalizada. Em um cenário no qual a própria ideia de verdade parece cada vez mais frágil, o filme sugere que a busca obsessiva por culpados, sejam alienígenas, corporações ou elites, pode ser apenas uma forma de evitar encarar a responsabilidade humana pelo caos que criamos.
A metáfora da bugonia atravessa todo o filme. Na tradição do mito, da decomposição pode surgir nova vida. Aqui, essa ideia ganha um tom inquietante, como se a própria humanidade estivesse em processo de decomposição moral. Em tempos de radicalização e desinformação, algumas escolhas do filme soam perigosamente ambíguas, ainda que a discussão proposta seja válida. No fim, fica a sensação de que o filme termina sabendo que será divisivo.

